quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Lá, e de volta outra vez...

Juro que já tentei fazer este post várias vezes. Já tem mais ou menos um mês que me restrinjo em vir aqui e rascunhar mais um pouco... Nunca clico em Publicar Postagem! Não sei se vai ser dessa vez. Passar tudo o que vivi em um ano de viagem é muita bagagem... Muito detalhe emocionante que muda muita percepção da vida...

Várias também foram as vezes que tive que responder a mesma pergunta "Como foi?". Na verdade eu já estava preparado que ela viesse. Tínhamos pensado até mesmo em criar uma camiseta com os dizeres "A VIAGEM FOI DO CARALH&($#" e usá-la por um determinado tempo. E realmente foi DO CARAL&*$@, mas quando voltamos parece que ela nunca existiu. Foi um sonho... Tudo continuou a mesma coisa, todos estão do mesmo jeito, a rotina é a mesma... muda uma construçãozinha aqui, outra ali, fulano arrumou namorada, ciclano trocou de emprego, enfim, a essência é a mesma... mas eu? Eu não... eu mudei! Vi várias coisas acontecendo, vi várias coisas diferentes todos os dias e passava por situações complicadas, divertidas, aterrorizantes, todos os dias! Mas quando voltamos, parece que freamos de repente, engatamos marcha ré, e continuamos a viagem em 1ª marcha.
Mas ainda sim, foi ótimo ter voltado! Como senti falta de todos que aqui deixei! E agora é tempo de construir a vida devagar, pensando no futuro... o que eu definitivamente não fiz ano passado...
E como é bom não pensar no futuro!
Certa noite, conversando com hóspedes do hostel em que trabalhei, regado a um bom vinho tinto português e New Slang ao fundo, um jovem com os seus 26 anos contou que uma vez havia viajado pro deserto do Saara com um amigo, e de noite no deserto só se via estrelas, um céu como ninguém de nós poderia compreender. E elas não iluminavam nada do horizonte, o momento ideal para seu amigo lhe propor uma corrida até a primeira duna que encontrassem. Então eles correram! Correram no vazio, não se via um só palmo a frente, e só se sentia os pés procurando uma posição segura na areia, o suficiente para não caírem e continuarem correndo, e riam! Riam até esgotar o fôlego! E esse foi o momento mais vivo que ele já teve em toda vida... correr no vazio!
Eu me sentia assim! Correndo... sem me preocupar com o que poderia haver na frente... com aquele medo e aquela sensação de estar vivo.

Só me resta falar um pouco do que vivi, e vocês tirem suas próprias conclusões de ter sido válido ou não a experiência que tive. E para não me desfazer das tentativas passadas de postar este texto, segue o que eu já havia escrito, com as devidas modificações:

Poisé... Voltei! E como todo bom brasileiro, só agora, depois do carnaval, começou meu ano! Desempoerado, agora é fazer a roda girar e ganhar dinheiro de forma nada subemprego.
Foram 365 dias exatos, 8 países, 22 cidades, aproximadamente 41200 km rodados, distancia suficiente para dar uma volta ao mundo e ainda tomar um café em Paris. Distribuídos de certa forma que superou minhas expectativas.
Realizei não apenas 1 sonho, mas vários!
Entrei em monumentos históricos, participei de fatos históricos. Fiz amigos de todas as partes do mundo, alguns deles agradeceram por ter me conhecido, mas eles não sabem o quanto sou muito mais grato por ter passado um pouco pela vida deles, aprendi falar uma terceira língua, e uma ou outra palavra em uns outros 10 idiomas. Morei sozinho e também dividi casa com mais de 12 pessoas. Aprendi a cozinhar e a importância de manter um quarto arrumado. Conversei com um holandês sobre as vantagens e desvantagens da legalização da droga, vi o Papa e entrei em sua morada da forma mais inusitada possível, conversei em italiano com um mendigo russo que cantava em inglês num ônibus em Roma (e ele parecia espantosamente com o Tom Zé), conversei em inglês com um mendigo em Amsterdã que era francês e falava todas as línguas possíveis (e ele provou! Acreditem!), conheci estrangeiros que amam o Brasil e outros que pensam que falamos espanhol e Brasília está no meio da Amazônia, muitos desses eram doutores, mestres ou com qualquer outro título. Os mendigos sabiam que aqui falamos português e sabiam o que era português, falavam "bom dia", "boa tarde", "boa noite", "obrigado" e "cuidado com a bicicleta!". Dormi na rua, comi restos de comida, vendi muambeira de porta em porta, fui garçom, assentei piso e até gerenciei um hostel! Senti o que é ser imigrante, aprendi uma musica em indiano, vi pessoas chorarem nos bastidores de um restaurante, sentindo falta da mulher e dos filhos que deixaram no Brasil, no Nepal, na Bolívia, no Chile... E não necessariamente a mesma pessoa. Falsifiquei um visto europeu e senti o calafrio ao passar pela policia européia mais de nove vezes, sem nenhum único problema. Chorei de desespero por ter me perdido em Roma e não conseguir voltar pra casa, em uma noite que batia 0ºC e eu andava com a minha tímida jaqueta do inverno uberlandense. Quando isso aconteceu eu não falava nada de italiano, e foi nesse dia que descobri, da pior forma possível, como nenhum italiano fala inglês! Hoje conheço Roma como a palma da minha mão, e me perdi nos metros de Paris, vi onde o Hitler morreu, andei por um campo de concentração e desejei que esse infeliz nunca tivesse vivido. Fui rejeitado em milhares de emprego, sofri preconceito por ser brasileiro, mas também ganhei muita gorjeta pelo mesmo motivo... Mas estas não vinham dos portugueses. Vi pessoas sendo atropeladas pelos touros de Pamplona, vi o Sol nascer deitado num banco de uma praça de Roma, vi o Sol se por no meio do mar mediterrâneo. Senti-me sozinho no início e depois eu casei e ela sempre estava lá comigo! Tive um gato de estimação, mas depois ele foi devorado por um cão. Passei três meses comendo macarrão e pizza, passei um mês comendo o que o dinheiro dava, passei vários meses comendo bacalhau, e quando fui esquiar levei um tombo que me fez passar vários metros comendo neve. Vi a neve!!! Subi as escadarias do Rocky e comemorei no melhor estilo! Vi meu primo que não via ninguém da família a mais de sete anos, dormi na casa de pessoas que nunca tinha visto antes na vida, passei quatro dias sem tomar banho... Em pleno verão! Criei uma coleção de moedas, e essa já tem tantas de tantos lugares. Me embebedei num cruzeiro, num trem e num avião, e descobri que essa é a melhor maneira de viajar! Quando você acorda já está lá! Caminhei pelo Central Park e corri pela Disney às 10hs da noite para aproveitar o parque que fechava a meia noite.
Nunca aprendi tanto sobre o nosso país, só por estar fora dele. E estando fora, concluí que aqui é realmente o melhor lugar do mundo. Caminhei pelas margens do Tejo, do Douro, do Sena, do Tevere e nenhum deles ganhou dos passos sem pressa pelo Mondego. O morango, o vinho, o chocolate, o rio, as estrelas e Ela...

Obrigado Léo, o melhor dos EUA foi saber que eu fiz parte de um pedacinho da sua vida!
Obrigado Marcão e Clidi, pela FANTÁSTICA companhia e pelas centenas de euros emprestados!
Obrigado querida mamãe e querido papai, por ter apoiado essa empreitada maluca e pelas horas de preces... elas funcionaram!
Obrigado João Caldas e Antonio, por confiarem a chave da empresa em minhas mãos!
Obrigado Amor, por lá ter estado sempre ao meu lado, e aqui estar também!
Obrigado a todos que me incentivavam a continuar continuando... Muito desses nem sabem da existência desse blog e muito menos do tanto que me ajudaram...

Muitas coisas não relatei aqui durante o ano. Às vezes batia aquela preguiça, às vezes não dava tempo, e assim algumas histórias se perderam... não fiz nem metade de tudo que deveria ter feito e não relatei nem metade de tudo que fiz, mas com esse pouquinho de palavras espero ter inspirado ao menos uma pessoa a se arriscar e por ao menos um ano fazer tudo sem pensar no amanhã. Utilizo a frase que meu amigo Leonardo Dias me disse em um momento de medo, dias antes de partir para Europa: "Cara... vai! Não pensa no que pode ou não acontecer. As coisas simplesmente vão acontecendo de uma forma surpreendente! Você só tem que decidir se quer vivê-las ou não... eu escolheria a primeira opção!”

Beijos, abraços e espero vê-los por aqui em breve. Continuarei escrevendo...
Lucas

4 comentários:

Marco Paulo disse...

Maluco hein :D
Agora é usar isso ae pra fazer de nós rapazes ricos! :D

Diego Araújo disse...

Eeeen demais, Jucas. É bom saber como vc curtiu. Mas é mais xubs tê-lo de volta, brotha!

Indecoroso disse...

humm... fiquei com uma ponta de inveja desse tour...

thiago disse...

uai brother .. grande amigo Lucas .. simplesmente sem palavras pra tudo que você relatou ai .. e se isso é um terço de tudo que você pode comtemplar .. te digo que você está realizado... e Naiara tambem .. por estar do seu lado.. abraços e beijos e até breve ... thiaguera ..