domingo, 30 de novembro de 2008

Saramago é o tal, menos em Portugal

É engraçado como às vezes a gente pega as coisas no ar, sem ter uma idéia muito clara do que está acontecendo.
Já faz um bom tempo que estou em terras lusas, mas recentemente, prestando um pouco mais de atenção, percebi que há uma certa animosidade, ou indiferença com o Saramago.Não é que todos tenham que ficar babando no cara o tempo inteiro(apesar de ser mais do que merecido), mas ele é o ÚNICO ganhador do Nobel em língua portuguesa e um dos raros autores do país de Camões em destaque na literatura atual.Ou seja, seria de se esperar que, em um país extremamente nacionalista e orgulhoso de cada uma de suas particularidades, ele deveria ser idolatrado como um bezerro de ouro.Mas não.Não se ouve falar dele, ele não aparece em jornais ou revistas, a não ser naquelas noticiazinhas de rodapé geralmente reservadas para casamentos entre filhos de políticos, e quando perguntamos para o tuga x se já leu algum livro do Saramago, geralmente a resposta é um resmungo.Muito estranho, caro Watson.
Bom.Fui deixando essa idéia de lado, me preocupando com outras coisas, me espantando diversas vezes, como por exemplo,
na livraria:"Já chegou o livro novo do Saramago?"
"Não estou sabendo de livro novo nenhum"
"Tem certeza?Li no blog dele que ele ia lançar um, sobre um elefante, esqueci o nome"
"Não, não sei de nada"
Tudo bem, seria aceitável.Mas foi UMA SEMANA antes do lançamento do livro em Portugal.Incrível.
Além disso, o filme sobre o "Ensaio sobre a cegueira" estreiou aqui bem depois,fui no primeiro dia e não tinha praticamente ninguém no cinema.Só uns tiozinhos que, como disse o Lucas, deviam ser amigos do autor.
Como se não bastasse, ele mora na Espanha.Isso diz muita coisa para um português.Os portugueses, como regra geral, odeiam a Espanha, a comida da Espanha, a gente da Espanha, o idioma da Espanha, e mais do que tudo, os portugueses que moram na Espanha.Então, é claro, existe algo de podre no reino da Dinamarca.
Enfim.Essa semana, conversando com um amigo português numa festa, perguntei o porque disso tudo.Ele me deu uma resposta vaga, relacionada com a ditadura e etc, razão pela qual fui perguntar para a criatura(e se você me disser que ele não é um ser vivo,vai magoar meus sentimentos) mais bem informada da Terra:o Google.
"Saramago e Portugal", deu como resultado a resposta que eu procurava, por ser um motivo que entendo perfeitamente :"Saramago diz em entrevista que Portugal deveria ser uma província da Espanha".
Porra.Eu sei que Portugal é um país minúsculo, com uma indústria incipiente e insignificante comparado com a opulenta Espanha.Mas putaquepariu, imagina se falam para os Argentinos que deveriam ser anexados ao Brasil?Acho que eles não ficariam contentes.Nem a gente.
Não é uma declaração fácil de engolir.E o cara ainda casa com uma espanhola e raramente vêm a Portugal, além de, claro, não cumprimentar sob nenhuma hipótese o presidente.Mas essa é outra história.
Então.Não para por aí.Temos que levar em conta que Portugal é um país extremamente católico, conservador e tradicionalista.E qual é o livro que é indicado para o prêmio europeu?"Evangelho segundo Jesus Cristo", um livro nada tradicionalista, nada conservador e nadica de nada católico.Aí vetaram a candidatura do Saramago para o prêmio.O que gerou um certo stress entre o mesmo e o atual presidente, ministro que assinou o veto na época.Uma imbecilidade?Com certeza.Mas cada país tem a imbecilidade que merece...
Mistério resolvido, com a observação de que, em relação à nós, tropicais e bonitos por natureza, o Saramago é sempre uma gracinha.Educado, bem humorado e viaja ao Brasil regularmente.Mas quem gosta dele de verdade são os espanhóis.E não é para menos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

As idéias que não revolucionaram a humanidade(ainda)

Logo no ínicio dos anos 80, o pessoal dos EUA teve uma brilhante idéia: por que não prender as pessoas nas suas próprias casas?
Não, não, eles não inventaram a televisão, esta já prendia as pessoas nas suas próprias casas há muito tempo.O que ele pensou, numa tarde tranquila,em sua casa de campo foi:e se colocássemos um aparelhinho que impedisse as pessoas de saírem de sua própria casa?Inicialmente o tal aparelhinho dava um choque naquele que ultrapassasse o limite de espaço(normalmente o seu próprio quintal), o que acabou convertendo muitas sentenças de pena de prisão domiciliar em pena de morte. Isso, é claro, gerou alguns inconvenientes.
Hoje a prisão domiciliar já é aplicada em diversos países.Aqui na terrinha esteve em uma fase experimental e agora está sendo amplamente utilizada.Ou seja, menos gastos com carcereiro,comida, etc e menor possibilidade da rapaziada fazer aquela festa no presídio.Obviamente isto só funciona em casos leves,porque em casos de homício, estupro e etc, a galera quer ver sangue, e é mais seguro para o meliante estar na prisão. Em Portugal surge como alternativa à prisão preventiva, que é aquela na qual o delegado olha para a cara do cidadão e diz “tão falando por aí que você é culpado, vou te prender e ver se dá certo”.Lógico que dá certo.Cidadão no Brasil é sempre culpado de alguma coisa.
Sabe como funciona?Pegam uma coleirinha, colocam na canela do indivíduo e ela fica emitindo um sinal que é como o GPS para delinquentes.Eu achava, na minha vã ignorância que esse tipo de coisa só existia em filmes do Harrison Ford.Mas não.Até aqui na pacata cidade de Coimbra já implementaram a novidade.
Juridicamente?Penso que é Ok.Devidamente autorizado pelo Código de Processo Penal(ó meu Deus, palavras do Direito.Mas bem, é só um código.Diz o que as pessoas devem fazer, nesse caso juízes, advogados e promotores.Então, se você não for um deles, não precisa _e não vai_ entender.)e dado o consentimento de todos os participantes(o preso, a mulher do preso, o cachorro do preso. É sério. Existe uma coisa no direito chamada consentimentus caninus.Não.Brincadeira.).
Por outro lado, como todo eletrônico que se preze, ele está propenso a uma grande e enorme zica a qualquer momento do espaço tempo.Isso seria meio chato, dado tudo que foi investido e toda a expectativa gerada no meio jurídico.Além de que teriam que mobilizar uma galera para pegar todo mundo e por na cadeia.Claro, que numa situação dessa, só restaria aos meliantes ficarem extremamente revoltados, pegarem um mais sambanga pra refém, tacarem fogo nos móveis e etc.Mas, como estamos falando de Portugal,o máximo que fariam seria reclamar um pouco, resmungar outro tanto e falar mal_pra caramba_ do Brasil.
Enfim.Mundo mundo vasto mundo.

But you don´t really care for music do you?ª

Tudo nesta vida que vale a pena tem uma trilha sonora. Quando você beija pela primeira vez a última pessoa, quando sai de casa pra ver qualé dessa de mundo, quando ainda está no colegial e tudo se resume à umas preocupações tão baguás, as festas da faculdade, o casamento , e desconfio que também se ouça algum tipo de música na morte.E, sim, morrer é algo que vale a pena. Mas passando por alto por estes assuntos místicos-metafísicos, que se nem Deus, o Diabo ou a Globo (desde que se considere que esta não se enquadra na categoria anterior) conseguiram responder, não vou ser eu a me arriscar por esses caminhos. Enfim, não é esse o assunto dessa crónica, então deixa pra lá.
Voltando a trilha sonora. Você, que gosta de música, há de me compreender. Sabe quando você coloca o fone no ouvido com AQUELA seleção, a que te faz acreditar num mundo melhor, e de repente a sua vida parece um videoclipe? Esses momentos, de incrível sintonia com o meio ambiente e de empatia com a humanidade, definem o seu grau de amor pela música. É certo que todo mundo gosta de uma musiquinha ambiente e etc, mas convenhamos que musiquinha ambiente é música nenhuma. Eu me refiro aqueles que precisam escutar música, ficam emocionados com uma banda nova fenomenal, que toca num ponto que não chega bem a ser o coração, mas é alguma coisa lá dentro, um aperto no peito, uma sensação de deslumbramento. Então, esse post é para essas pessoas. Parafraseando o bailarino chefe do balé de Moscou, não para as pessoas que gostam de música, mas para aquelas que precisam dela.
Beirut. Sei, sei, falta um e, é uma comida e uma cidade e, nossa, que bom que isso é de conhecimento geral, mas o mais importante é que Beirut é uma banda.E que banda.
Eles são indie, mas não propriamente. Folclóricos, mas não propriamente. Alternativos sim, mas sabe-se lá o que é isso. Atualmente tudo que é alternativo se desmancha no ar. O pessoal do Beirut faz com que você se sinta na trilha sonora de um filme do Tim Burton, se ele fosse só surreal e não surreal e macabro. Faz você pensar que todos esses instrumentos musicais existem para algo mais do que a opulência de uma ou outra orquestra, e de que existe mais coisas no rock’n roll além da velha guitarra. Elephant Gun, uma música foda, com uma letra foda, e um clipe igualmente foda,já tocou no meu player sozinha um milhão de vezes. Acho que isso define bem o que eles fazem: essas músicas que a gente não enjoa de ouvir, ainda que tente bastante.
Então. Essa foi a minha trilha sonora na última viagem que fiz , e cumpriu a sua função. Mas ainda haverá mais de ambas, por outros lados, por outros caminhos, com outras playlists. Se é que você me entende.
Mundo...
ªPara quem não sabe ou não se lembra, o título em inglês é de uma música do Rufus Wainwright, "Halleluja".